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terça-feira, 25 de janeiro de 2011

Como criar um clima propício à adaptação



Entender a adaptação como uma oportunidade para aprender constitui-se num desafio e remete a dois pontos que incorporam valores importantes para nossas ações: acolhimento e aproximação

Eloiza Schumacher Corrêa

Mais um início de ano letivo! Com ele, professores, cheios de expectativas, preparam-se para a chegada de seus alunos. Sonham, constroem cenários imaginários, tecem hipóteses, elaboram planos e projetos, experimentando a energia e o entusiasmo que costumam caracterizar os começos.
Creio que esse é apenas um dos olhares (e possivelmente o mais gostoso deles) para o início de um ano letivo. Com ele coexistem muitos outros que se manifestam com intensidade variada (conforme o histórico e o contexto de cada educador) e produzem sentimentos diversos (alegria, insegurança, vontade, desânimo, coragem, incerteza, preocupação, responsabilidade, receio, etc.). Dentre alguns olhares possíveis, gostaria de explorar uma faceta que marca as primeiras semanas de aula em muitos ambientes educativos: o período de adaptação. Preocupação que se evidencia, sobretudo, na educação infantil, o processo de adaptação das crianças ao espaço, ao grupo e ao convívio com os adultos tem levado as escolas e os professores a tomar atitudes diversas. E, portanto, merece atenção especial.
Quando se fala em adaptação, rapidamente nos damos conta de que as questões que permeiam esse processo são complexas, não dependem somente da escola e requerem aprendizagem constante de todos os envolvidos. Entendê-la como um processo complexo e delicado é um primeiro passo para não banaliza-la, ou seja, é uma atitude necessária para que possamos construir ações intencionais e coerentes com as necessidades das crianças nesse momento.
Todos tentam organizar-se de diferentes maneiras em torno da idéia de proporcionar um começo feliz. Algumas medidas nesse sentido são bem conhecidas: programar a rotina para um tempo menor e ir aumentando-o gradativamente, permitir ou até mesmo exigir a presença dos pais ou responsáveis até que a criança fique bem, iniciar o período somente com os alunos novos para que todos os educadores possam dedicar-se a eles, introduzir no cotidiano diversas atividades atraentes (fazer gelatina, pipoca; usar materiais interessantes, oferecer novos e variados brinquedos). Sem dúvida, todas essas medidas são eficientes e contribuem para amenizar processos por vezes traumáticos. Entretanto, a lógica implícita nessas ações é a de que primeiro precisamos tratar de adaptar as crianças e, quando isso estiver resolvido, podemos tratar de educá-las.
Creio que podemos ir além e romper com essa lógica, ou seja, organizar o tempo assegurando também importantes aprendizados desde o início, sem separar o tempo de se adaptar do tempo de aprender, mas, ao contrário, construir caminhos para que as crianças aprendam com a adaptação. Obviamente não me refiro aqui aos aprendizados acadêmicos, voltados para a aquisição de informações. Falo de outros, daqueles aprendizados que realmente fazem a diferença, contribuindo para ajudar a criança a se tornar um adulto mais responsável, sensível, solidário, tolerante, cooperativo, crítico, autônomo, corajoso, feliz, preparado para colocar e enfrentar problemas.
Entender a adaptação como uma oportunidade para aprender constitui-se num desafio e remete a dois pontos que incorporam valores importantes para nossas ações: acolhimento e aproximação. O dicionário Aurélio define acolhimento como "o ato ou efeito de acolher; recepção; atenção, consideração; refúgio, abrigo, agasalho". Acolher tem a ver com a atitude de aceitação e hospitalidade que podemos ter frente ao outro. Em relação à adaptação, além de serem acolhidas, as crianças precisam aprender a acolher umas as outras. Portanto, não é necessariamente um processo natural, porém algo a ser construído por todos os que atuam no sistema escolar (professores, alunos, funcionários, pais). Para tanto, muito mais do que discursos, precisamos de práticas - atitudes coerentes e convincentes - que atinjam mais as emoções e o caráter do que o intelecto. Não é porque dizemos aos nossos alunos que é importante acolher o outro que eles o acolherão; tampouco está em nossa fala a acolhida em relação às crianças ou aos seus pais.
Que tipo de práticas, então, podem promover o acolhimento? Especialmente aquelas que explicitam e fazem vivenciar a hospitalidade. Nesse sentido, é preciso estruturar ações voltadas para o exercício da hospitalidade em todos os momentos da rotina com as crianças. Na nossa casa, estamos sendo hospitaleiros quando alguém nos visita e procuramos fazer o máximo para que essa pessoa se sinta bem, seja por meio de comidas de que supomos que ela gosta, da preparação de uma bela mesa para ser compartilhada, da arrumação da cama aconchegante, da atenção e disponibilidade para atendê-la, das informações necessárias para que se sinta confortável na casa. Enfim, por meio de diferentes ações fazemos o possível para deixar a pessoa à vontade. Isso, sem dúvida, exige preocupação, no sentido de ocupar-se antecipadamente com o outro.
Embora a situação escolar seja mais complexa, pois são muitas as crianças, com famílias, histórias e culturas diferentes, a idéia dessa hospitalidade pode ser transportada para lá. Quando, por exemplo, a professora promove um divertido banho de mangueira e, no final, seca carinhosamente cada um com a toalha, ou opta por preparar com a turma uma tinta para que primeiro mexam, se lambuzem e só depois pintem, ou arruma a sala para receber as crianças com panos grandes pendurados no teto para que possam inventar cabanas e criar brincadeiras diversas, ou faz algo inusitado que as faça rir, ou as recebe com carícias e percebe algo importante para ser elogiado, ou prepara com a turma um bolo ou uma gelatina para ser compartilhada no final do período, ou explora atenciosamente os espaços da escola, ela está sendo muito hospitaleira. Ela está dizendo, sem falar, que gosta de seus alunos e se "pré-ocupa" com eles.
Obviamente, para encadear ações como estas, não existem fórmulas prontas e universais, que podem ser repetidas em todos os contextos, como se todas as crianças fossem iguais e abstratas. Ao contrário, como a infância não é vivida da mesma forma em diferentes tempos e espaços, são necessárias ações adequadas a cada contexto (pessoal, familiar, social, cultural). E, diferentemente do que ocorre no ambiente doméstico, essas ações não são construídas espontaneamente, mas requerem o rigor da observação, da escuta, do estudo, da reflexão, da discussão coletiva. Cabe salientar ainda que é na sutileza dos detalhes durante o desenvolvimento dessas ações que se revela o acolhimento. Contudo, além de se sentirem acolhidas, é preciso que as crianças possam aprender a "pré-ocupar-se" com o outro, acolhê-lo. E, nesse caso, as práticas voltadas para a aproximação de uns com os outros são fundamentais.
Criar um clima propício para a aproximação não é tão simples. É preciso um olhar cuidadoso e atento para perceber o que aproxima as crianças. Pode ser a preparação coletiva de uma massa ou o manuseio de materiais maleáveis, em que diferentes mãos precisam se encostar, ou a necessidade concreta de fazer algo juntos, como levar um pesado balde de água, ou brincadeiras nas quais seja necessário dar as mãos e tocar o outro. Esse tipo de ação contribui para a consolidação de vínculos que se estabelecem através do toque. Por outro lado, ações como preparar um pão para os colegas de outra turma, fazer uma grande obra coletiva, ajudar um colega menor, apresentar algo para alguém remetem a atitudes de responsabilização em relação ao outro. Em ambos os casos, o que está em jogo é o exercício da convivência, são as pequenas ações que fazem prevalecer a comunhão de uns com os outros. Os processos envolvidos nessas ações certamente colaboram para que possamos ajudar as crianças a se tornarem amigas.
Pelo que foi dito até aqui, fica fácil perceber que tanto as intervenções voltadas para o acolhimento quanto aquelas voltadas para a aproximação têm uma dimensão muito mais afetiva do que pedagógica, o que contribui para aquecer a discussão a favor dos modelos educacionais embasados em muitos autores, como Morin (2000, 2001), Nicolescu (2001), Maturana (2005), Moraes e La Torre (2005), que incluem a vertente emocional nos conteúdos escolares. Trata-se de imaginar uma escola que não mais separe razão e emoção, que encante, que comova, que toque. Até porque, como nos diz Leonardo Boff (2007), "a estrutura de base do ser humano não é a razão, mas o afeto e a sensibilidade". Creio que assim estaremos mais próximos de conceber a escola como espaço de aprendizagem onde os alunos experimentem formas mais humanizadas de ser e agir na convivência, o que é tão fundamental nas sociedades contemporâneas.
Por último, gostaria de destacar que as reflexões sobre acolher e aproximar não precisam ficar restritas ao período de adaptação nem à educação infantil. Em todos os momentos e em todos os níveis de ensino, precisamos criar contextos para ajudar nossos alunos a querer ter alguém como amigo, a se comprometer com o outro, a aceitar e respeitar aquele que é diferente para poder conviver com ele, a se encantar com um assunto a ser estudado, aprendizados fundamentais a serem desenvolvidos na escola se a intenção é contribuir para um mundo melhor.

Eloiza Schumacher Corrêa é consultora de educação nas redes de ensino pública e privada nas áreas de Educação Infantil e Ensino Fundamental, assessora pedagógica da Escola Autonomia, de Florianópolis (SC), pedagoga, assistente social e especialista em Alfabetização e Educação Sexual.
eloiza.c@superig.com.br

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