quinta-feira, 9 de fevereiro de 2012

Traumas: teias ou trampolins

Traumas: teias ou trampolins

 | Por Lilian Larroca


(Imagem: Contrastwerkstatt/Fotolia)
À medida que o conhecimento da Psicologia, embora superficial, democratizou-se, algumas expressões tornaram-se cada vez mais ouvidas no contexto escolar. É comum os pais justificarem certos comportamento de seus filhos, ou alegarem que determinadas dificuldades escolares foram provocados por traumas ocorridos em momentos anteriores da infância. Diante da exposição das dificuldades e necessidades de alguns alunos, pode ocorrer uma tendência a explicá-las utilizando esse conceito, nem sempre de forma totalmente apropriada como, por exemplo, o aluno temtrauma de provas porque uma professora anterior falou sua nota em voz alta de forma depreciativa; não fala ou pergunta diante dos colegas, pois foi ridicularizado e adquiriu um trauma; não reconhece nem obedece as figuras que representam a autoridade na escola porque alguém gritou com ele e o sacudiu no passado, provocando traumas; e tantas outras situações mencionadas.

Não é o objetivo deste artigo discutir a propriedade do uso da palavra trauma,  mesmo porque esse é um termo da Psicologia, e não da Pedagogia, minha área de atuação. A discussão, nesse momento, refere-se à atitude de pais e educadores quanto à solução dessas dificuldades.

Frequentemente, em sala de aula, deparamo-nos com alunos que apresentam alguma dificuldade na aprendizagem ou problemas comportamentais. Embora seja papel da escola acolher os alunos em suas diferentes necessidades e promover seu desenvolvimento apesar dessas circunstâncias, não é papel da escola ou da família determinar, sozinhos, suas razões. Cabe ao educador ficar atento para que, sob a alegação de trauma, outros problemas não sejam negligenciados. 

Para algumas famílias, que consideram a possibilidade de ocorrência de transtornos de aprendizagem muito dolorosa, ou para aquelas que apresentam resistência em se engajar em um projeto familiar para desenvolver a disciplina na criança, pode ser mais fácil explicar as dificuldades através de alguma situação ocorrida em outros momentos da vida pessoal ou escolar do que encarar um diagnóstico ou a reformulação da rotina, nos casos de indisciplina. Diante das alegações de traumas, é importante que a escola e o professor verifiquem algumas questões importantes:

Respaldo profissional: Apenas uma explicação da família não é suficiente para respaldar a alegação de trauma. O problema deve ser detectado e atestado pelo profissional devidamente qualificado - o psicólogo. Apenas ele pode definir se a dificuldade apresentada tem, de fato, origem em bloqueios de ordem emocional, ou se há necessidade de ampliar a investigação sobre a causa do problema, realizando uma avaliação multiprofissional. 

Acompanhamento terapêutico: A criança, após detectado o trauma, necessita do acompanhamento profissional devido, enquanto o psicólogo determinar que há necessidade. Pais que alegam traumas, mas não buscam tratamento para a criança, não podem exigir que a escola contorne problemas que precisam ser solucionados. A mera tolerância dos resultados desse trauma (ou de qualquer outra dificuldade escolar), sem o devido cuidado e esforços pela restauração, não é uma prova de amor e aceitação da criança, mas uma perigosa conivência que, por não impelir ao tratamento necessário, não proporciona a cura emocional e aprisiona a criança nesse limbo que a impede de viver uma vida normal. Muitas vezes, a terapia exige a participação e uma reestruturação dos hábitos da família, e isso é doloroso, porém é o único caminho para que a criança de desenvolva de maneira plena. 

Parceria entre a escola, a família e os profissionais: A criança, devidamente acompanhada, precisa ser aceita e acolhida pela escola. Adaptações precisam ser feitas para atender às suas necessidades. No entanto, diferentemente da tolerância passiva, essas adaptações devem ser discutidas, periodicamente, junto com a família e o psicólogo que acompanha a criança. Essa parceria permitirá que esses três agentes cooperadores trabalhem numa mesma direção e apresentem ações coerentes com o alvo comum estabelecido: desenvolver, de forma plena, todos os aspectos do indivíduo. 

Ressalta-se que o artigo não pretende questionar a ocorrência ou não de traumas, e nem desvalorizar o efeito que ele pode provocar em uma criança, mas alertar para o perigo de, em atitude de irrefletida tolerância, “incorporá-los” à criança, como se fossem algo do qual ela não pudesse se livrar (ou minimizar), carregando esse fator limitador pelo resto de sua vida e esperando que o mundo se adapte à sua situação. 

Quando uma criança apresenta determinados comportamentos ou dificuldades realmente causados por traumas, cabe à escola compreender essa situação, porém permitir que uma criança traumatizada permaneça neste estado sem o tratamento correspondente, é rotulá-la e condená-la a viver sob o peso das limitações a ela impostas por um acontecimento passado, sem a chance de cura emocional. É aprisioná-la a uma teia que interfere em sua funcionalidade, em sua autoestima e priva-a da oportunidade de desenvolvimento pleno ao invés de ensiná-la a lidar com as situações e transformar esses obstáculos em trampolins para a superação e vitória.

Por esse motivo, não cabe à escola minimizar os efeitos de um trauma na vida da criança, mas reconhecer que sua importância é tão grande que não deve ser ignorada através da omissão. É seu dever orientar a família a buscar a avaliação psicológica e o tratamento necessário, para que, a partir dessa oportunidade de superação e crescimento, o passado seja um trampolim capaz de alçar a pessoa a níveis mais elevados de desenvolvimento e realização. 

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